MAIS UM PASSO E SE DESFAZ

A exposição "Mais Um Passo e Se Desfaz" é a sexta individual de Ana Calzavara. A mostra é composta de pinturas de diversos tamanhos, desenvolvidas pela artista durante o último ano.

 

A artista pinta vistas vazias, capturadas por um olhar enviesado. Em detrimento de grandes temas, ganham protagonismo, a exemplo da pintura flamenga, os assuntos e cenários cotidianos.Essas vistas são capturadas a partir de imagens imprecisas, desfocadas ou ‘negativadas’ (vistas como no negativo fotográfico). As falhas próprias da fotografia são incorporadas ao procedimento de passagem para a tela, dividindo-se no que poderíamos chamar de três séries: as Subexpostas, em que a pouca luz borra o dado visível; as Superexpostas, em que o motor do apagamento da imagem é a pontencialização da claridade; e os Negativos, retratados por meio da inversão do chiaroscuro “natural”. 

 

Outra característica fotográfica também assumida em suas “falhas” é a nitidez. Dentro do jogo de tensão sobre a representação, Calzavara também apropria-se da falta de foco e contraste para criar imagens fugidias, indefinidas. O enquadramento ganha recortes inusitados, que por vezes reduzem tanto a cena ao detalhe que chegam a remeter à abstração geométrica, como no caso de recriação de elementos arquitetônicos.

 

Portanto, embora o índice inicial fotográfico permaneça na leitura da maior parte das imagens finais, as pinturas não se restringem à seu referente, assumindo qualidades que envolvem a linguagem pictórica em si. 

 

Nesse jogo com as premissas fotográficas no que elas têm de imperfeito, desconstruindo o status de realidade da imagem pela sobreposição da pintura, Ana Calzavara dá ao mundo sua resposta ao dilema contemporâneo da representação. Num tempo saturado por imagens que se esgotam na mesma velocidade em que são registradas, a introdução do erro e da imprecisão subvertem o caráter serial da figura, que então aponta para a singularidade por trás de cada olhar.

 

Por: Patricia Canetti (Canal Contemporâneo)